Victor Marcello e Priscila Midori do Projeto Nosotros.
O Projeto Nosotros é uma iniciativa independente do ilustrador e animador Victor Marcello com a publicitária Priscila Midori.
Nós estamos viajando por toda a América Latina registrando trabalhos de jovens artistas.
Em nossa passagem pelo Uruguai, conhecemos o Peach&Girls, um coletivo de músicos, designers e outros profissionais criativos que se uniram para apresentar um trabalho de alto nível que vai contra o mercado das grandes gravadoras.
A seguir, a entrevista que fizemos com eles:
Como é a estrutura de vocês e que tipo de suporte dão para as bandas independentes?
Nós não funcionamos como uma organização nem temos uma estrutura formal, mas trabalhamos de forma tática e espontânea.
Começamos como um grupo de amigos ligados pela música e pelas mesmas inquietudes sobre a cena musical uruguaia. Do intercâmbio de ideias, surgiu uma filosofia, um discurso em comum.
Queríamos fazer coisas transcendentes, espetaculares e desafiar o perfil que dominava a cena. Não tínhamos recursos econômicos, mas sim confiança em nosso trabalho e sede de fazer coisas maiores que nós mesmos. Isso tudo se transformou no projeto Peach&Girls.
Nossas bandas de rock formaram um grupo no qual começaram a orbitar designers, fotógrafos, diretores de cinema, figurinistas e estilistas ao redor, incluindo outros músicos e produtores artísticos que se simpatizaram com este discurso.
Participar dos projetos dessas bandas se tornou uma oportunidade de escapar dos moldes de nossos empregos e a possibilidade de pertencer a um ambiente coletivo, onde a liberdade artística é uma condição básica.
O projeto Peach&Girls segue até hoje como algo difuso e difícil de definir. Talvez a imagem de instituição que ele transmite seja somente uma fachada, uma ferramenta para conseguir coisas de fora e criar dentro dele um sentimento de pertença. Nesse sentido, tem sido muito eficaz.
Baseado na experiência de vocês, quais seriam as vantagens criativas quando se trabalha coletivamente e que resultados são obtidos?
A diferença entre um bom produto artístico underground e um bom produto artístico mainstream é por um lado, a legitimação do seu discurso, algo que passa muito pelo carisma conquistado; e por outro lado, a estrutura que o rodeia e o promove.
Com Peach&Girls, nós tratamos de encurtar as distâncias no sentido de armar uma plataforma de profissionalismo para impulsionar nossos projetos, baseada na solidariedade e na liberdade artística.
Sendo assim, funcionar coletivamente nos ajuda a transcender e nos permite competir em uma área que só a qualidade e carisma de nosso produto artístico faz a diferença entre o sucesso e o fracasso.
Como funciona a gestão do esforço do trabalho dos envolvidos em cada projeto e, consequentemente, o retorno financeiro?
O melhor exemplo são os shows ao vivo de Closet. Eles têm toda a produção de um show internacional (técnica, cenografia, vestimentas, efeitos visuais, etc), mas a banda consegue montá-lo com apenas 5% ou 10% do orçamento de um show internacional.
O custo em dinheiro é o mesmo, a diferença está na quantidade de horas de trabalho, nos honorários de quem participa e na reversão da ganância em melhor infraestrutura. A retribuição passa a ser a satisfação de pertencer a um projeto que vale a pena e onde todos gozam de maior liberdade criativa.

Como se mantém a qualidade de um produto quando esse possui tantos autores?
A quantidade de gente envolvida no mesmo projeto afeta a qualidade de forma diretamente proporcional; quanto mais pessoas trabalhando, melhores são os resultados.
Tudo parte de uma premissa muito clara, cada pessoa que assume colocar seu conhecimento e arte a serviço de uma ideia central (seja um álbum, um show ao vivo, etc), tem a última palavra no que diz respeito a sua área.
Assim, os resultados são inesperados, os quais não existiriam se seguíssemos só a imaginação e direção de uma única parte. É como quando formam o Power Ranger gigante, o resultado é muito mais que a soma das partes.
Por que optaram pelo download gratuito das músicas? Que tipo de retorno essa opção gera?
A indústria musical, mundialmente, já não vive há anos da venda de discos. Isso deixou de ser rentável há muito tempo quando apareceram as novas formas de distribuição cultural e ferramentas como a internet.
Se somarmos isso à realidade uruguaia de ser um mercado muito pequeno (a população de todo o Uruguai é de apenas 3,5 milhões) é facilmente compreensível, porque vender discos não é um bom negócio para quase ninguém aqui. Isso faz com que os contratos discográficos oferecidos às bandas do tamanho das nossas sejam muito desfavoráveis e até ofensivos.
Diante dessa realidade, tomamos duas decisões importantes: gravar de forma caseira, para nós mesmos arcarmos com os custos e distribuir rapidamente e gratuitamente pela internet.
O resultado tem sido muito positivo. Conseguimos, inclusive, ir além do efeito das primeiras edições, onde a forma de distribuição era inovadora e isso garantia a divulgação dos lançamentos. Em cada novo lançamento, a quantidade de downloads se multiplica, o que acaba em shows ao vivo para um público cada vez maior.

Vocês possuem outras ações para divulgar os trabalhos além do site?
As redes sociais nos ajudam muito a promover o download de cada lançamento, mas cada disco tem que se defender sozinho no reprodutor de áudio.
Como vocês fazem para medir o retorno das ações que desenvolvem?
Os resultados estão a olhos vistos, nossa forma de fazer as coisas chamou a atenção não só da imprensa especializada como também do público. Em cada edição, a quantidade de downloads é maior, os shows ao vivo vendem mais entradas e, o mais importante para nós, vemos outras bandas locais repetirem esse esquema de trabalho.
Mesmo que ainda não seja rentável, é um grande negócio para nosso desenvolvimento como músicos e artistas.
Vocês têm alguma intenção de gerar mudanças no mercado musical e de design no Uruguai?
Nossa postura é simplesmente uma arma de sobrevivência, uma forma de nos manter em pé. Filosoficamente, estamos convencidos de que oferecer nossa música não é uma atitude sustentável.
Um disco é um trabalho como qualquer outro e o artista que o leva a sério tem o direito de ser remunerado como qualquer outro trabalhador.
O inteligente de nossa postura é conseguir que nosso crescimento e desenvolvimento artístico não se paralise por falta de recursos.
Manteremos essa postura até sermos suficientemente grandes e influentes para que nos ofereçam acordos justos para o que produzimos.
Links:
Baixe as músicas das bandas integrantes do coletivo Peach&Girls aqui.
Assista a entrevista de Fran e Gutiërrez, dois dos integrantes do Peach&Girls, para o Projeto Nosotros aqui.
Acompanhe o projeto através do nosso site, Facebook e Twitter.
Comentado por Nosotros
19 de setembro de 2011 as 11:18Foi um grande prazer participar do blog. É muito importante dar espaço para inciativas como a do Peach&Girls. Obrigado pela oportunidade!